A Geração das Estrelas Sem Copa
Muito talento, pouca identidade e o maior jejum da história.

Nunca na história da Seleção Brasileira ficamos tanto tempo sem conquistar uma Copa do Mundo. E talvez o mais difícil não seja explicar esse jejum, mas entender como uma geração tão talentosa conseguiu produzir tão pouco vestindo a camisa mais pesada da história do futebol.
Alisson, Danilo, Marquinhos, Casemiro, Raphinha, Lucas Paquetá e Neymar. Uma geração extremamente bem-sucedida em seus clubes, mas que, defendendo o Brasil, jamais conseguiu construir uma identidade.
Como explicar isso para uma geração que não viu Pelé, Garrincha, Jairzinho, Romário, Bebeto, Tafarel, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Roberto Carlos e tantos outros?
Como explicar que temos Vinícius Júnior, eleito um dos melhores jogadores do mundo na última temporada, atletas entre os melhores de suas posições na Europa, Marquinhos, campeão da Champions League pelo PSG, Gabriel Magalhães, um dos pilares da defesa do Arsenal, além de tantos outros jogadores de elite e, ainda assim, a Seleção não consegue apresentar consistência diante de equipes que historicamente nunca figuraram entre as grandes potências do futebol mundial?
O problema nunca foi falta de talento.
O Brasil perdeu sua identidade.
Uma nação que, a cada quatro anos, esquece seus problemas, política, inflação, violência, saúde precária, escândalos e dificuldades do dia a dia, para se unir por uma única razão: acreditar que o futebol ainda pode representar o orgulho de mais de 200 milhões de brasileiros.
Mas essa geração nunca conseguiu representar esse sentimento.
É verdade que parte desse problema começou há quatro anos, quando Tite anunciou sua saída após a Copa do Mundo do Qatar. A Confederação Brasileira de Futebol não tinha sequer um plano para a sucessão. Carlo Ancelotti assumiu a Seleção há pouco mais de um ano e chegou à Copa do Mundo com apenas 13 partidas no comando da equipe.
Ainda assim, o que mais chama a atenção não é a parte tática.
É a falta de personalidade.
Como Vinícius Júnior, um dos melhores jogadores do planeta, abre mão de cobrar um pênalti decisivo para Bruno Guimarães? Como Endrick, a maior promessa do futebol brasileiro, perde um gol cara a cara com o goleiro?
Sou da época em que Romário queria decidir. Ronaldo chamava a responsabilidade para si. Rivaldo brigava para bater uma falta decisiva. Ronaldinho Gaúcho parecia sorrir quando a pressão aumentava.
Hoje vemos jogadores que, muitas vezes, parecem evitar o protagonismo justamente quando o Brasil mais precisa dele.
E o treinador?
Como aceitar um primeiro tempo em que uma seleção europeia de menor tradição domina o Brasil com quase 60% de posse de bola, sem qualquer mudança significativa de estratégia para o segundo tempo?
Mas a verdade é que seria injusto colocar toda a culpa em Ancelotti.
O maior problema desta Seleção não é o treinador.
É que ninguém consegue responder uma pergunta simples:
Qual é a identidade da Seleção Brasileira?
Em 1970 sabíamos.
Em 1982 sabíamos.
Em 1994 sabíamos.
Em 2002 também.
Hoje não sabemos quem é o líder técnico, quem é o líder emocional, qual é o estilo de jogo e, principalmente, quem está disposto a assumir a responsabilidade quando o momento exige.
Há muito para refletirmos.
Há muito para mudarmos.
Decisões políticas precisam deixar de interferir no futebol brasileiro. Mudanças estruturais precisam acontecer para que, em 2030, tenhamos uma Seleção que represente verdadeiramente a grandeza do nosso país.
Enquanto comemoramos as cinco estrelas conquistadas por gerações inesquecíveis, corremos o risco de viver apenas das lembranças.
Esperamos que, em 2030, sejamos novamente o Brasil “belo, forte, impávido colosso, cujo futuro espelha essa grandeza”, e não o Brasil que permanece “deitado eternamente em berço esplêndido”, acomodado às glórias do passado.
Porque aquelas cinco estrelas não foram conquistadas por jogadores que aceitavam a derrota.
Foram conquistadas por gerações que se recusavam a acreditar que perder era normal.
Ó Brasil, terra adorada, entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada.
E teus filhos continuam ansiando pela sexta estrela.
Matéria original do Daqui, escrita por Abner Almeida.